A mentira e a verdade

A questão da verdade e da mentira é um assunto muito curioso. Na infância, quando a criança aprende a mentir, também está a perceber que há certas coisas que pode guardar só para si. Está assim intimamente relacionado com a construção de uma identidade própria e tem uma função positiva. Poderíamos afirmar que a mentira tem vários graus de importância. Há quem diga que a mentira, em determinadas situações, pode proteger as pessoas de quem gostamos. Imaginemos que sai com o seu marido de um restaurante e vê um homem atraente a passar e, nesse momento, o seu marido lhe pergunta em que está a pensar. A probabilidade de mentir é provavelmente muito grande, porque é um facto sem importância nenhuma e pode criar um conflito desnecessário na sua relação. Quando encontramos um conhecido na rua que nos pergunta se está tudo bem, a generalidade das pessoas mente. Não passa pela cabeça de (quase) ninguém, no caso de estarmos a viver um problema complicado, despejar o assunto ali no meio da rua. A probabilidade da pessoa mudar de passeio da próxima vez que nos vir, aumenta muito! Há pessoas que têm muita dificuldade em mentir e sofrem com isto. São pessoas honestas e esquecem-se de que nem todas as pessoas são assim. Tem a ver com uma dificuldade em perceber que a confiança é um processo de construção, são os ingénuos! Outras pessoas mentem a toda a hora, não por serem más pessoas , mas porque não confiam em ninguém. São pessoas com histórias de grandes decepções emocionais.

Não podemos esquecer o mentiroso chico esperto! Acha sempre que engana todos com grande eficiência, e que nunca é apanhado. Tem como lema: “negar até à morte!” Diverte-se com as suas mentiras, ri-se sozinho delas e foge do seu vazio como “os gatos de água”. Geralmente, julga-se mais inteligente que os outros e nunca percebe que há muito pessoas que percebem os seus ardis, e por isso se afastam dele.

Pode-se mentir por vergonha, como as minhas filhas por exemplo. Ainda são crianças pequenas e quando as levo de carro à escola por vezes, cheira muito mal no carro e pergunto: “Quem deu um pum?”. As duas dizem que não e são capazes de jurar que não foram, acusarem-se uma à outra e até quase chorar para serem convincentes na sua mentira. Só são apanhadas porque uma delas tem uns puns com um cheiro característico, é assim uma espécie de impressão digital. Claro que tudo isto gera uma grande risada,… maus cheiros à parte!!

A mentira e a verdade não pode ser vista assim a preto e branco. É indiscutível que quando a mentira serve para prejudicar outras pessoas ou para passar por cima de outras pessoas é um acto condenável. Mas todos temos partes da nossa personalidade, ou das nossas vidas que não gostamos de revelar a todos as pessoas. A mentira perversa é que é perigosa. A perversão é muitas vezes invisível, está encapotada de simpatia e boas maneiras, mas cheira mal, muito pior que os puns das minhas pequenitas. Na minha experiência, há pessoas que sob a capa de arautos da verdade e dos valores mais elevados, são capazes de manobrarem pessoas para conseguirem os seus objectivos. No entanto, estão apenas a manipular a verdade para manterem o seu status quo.

Acredito que a verdade é o verdadeiro alimento da nossa alma e da saúde mental. Quando descobrimos alguma coisa sobre nós que sentimos sendo a nossa verdade, temos uma sensação de felicidade, um misto de paz e gratidão. A mentira intoxica os espíritos e corrói a auto-estimas das pessoas. Por exemplo, há casais que acreditam que vale a pena manterem-se casados por causa dos filhos. Mentira! Os filhos percebem o mau-estar, sentem o conflito e a hostilidade, senão de forma consciente, sentem inconscientemente que há algo não está bem e que lhes estão a esconder a verdade, o que é muito mau para eles. Usam o argumento de estarem a proteger os filhos, quando não estão mais que a proteger-se a si próprios de assumir a responsabilidade pelo falhanço da relação. Os filhos preferem pais separados mas poderem viver um bom ambiente com um e com o outro do que estarem no meio da paz podre.

O mesmo se passa por vezes nas organizações, nas empresas, nas equipas de trabalho e até na relação entre os governos e os governados. É curioso a facilidade com que os políticos em Portugal nos mentem. Tratam-nos como se fôssemos crianças pequenas que não percebem quando lhes estão a mentir. E depois é uma coisa compulsiva e que faz escola. Não me lembro de um primeiro ministro que não tenha mentido às pessoas. Dizem sempre que não aumentam impostos, e depois de lá estarem é das primeiras coisas que fazem. Podiam pelo menos ter a decência de dizer na campanha eleitoral que é algo que poderá acontecer. As pessoas não gostam de ser tratadas como estúpidas, nem de ser enganadas, pelos pais, conjugues, chefes ou governantes. E não gostam porque todos sabemos reconhecer uma mentira, está no nosso equipamento genético perceber isto. Eu percebo o argumento de quem diz que se dizem a verdade não são eleitos, mas insisto que não vale tudo! Depois resvala-se para mecanismos de trapaça, manipulação e mesmo perversão.

É por essas e por outras, que ninguém respeita este tipo de líderes, sejam eles, pais, chefes ou governantes. A manutenção do poder não pode ser feita através da mentira, só é legitimada através de uma relação de verdade e de lealdade. Depois não se admirem de as pessoas (filhos, colaboradores ou o povo) lhes perder o respeito, e não os verem como modelos de identificação. Porque é isso que os líderes devem fazer, oferecerem-se como modelos de identificação para que outros que os admiram e amam lhes queiram seguir as pisadas. Assim, se pode construir uma família, uma instituição ou uma sociedade mais saudável.

Alexandre Silva

2 Comments on “A mentira e a verdade

  1. Gostei muito do artigo. Mas queria saber mesmo o que leva uma pessoa achar que os outros estão sempre lhe mentindo

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