Consultório de Psicologia Clínica, Psicoterapia e Psicanálise
Há uma grande diferença entre brincar com o outro ou gozar com ele. Esta diferença está ligada à capacidade de rirmos com o outro, dele e de nós próprios, das nossas falhas, fraquezas e até insuficiências. Rir com o outro é muito diferente de rir dele! Dou de barato que é impossível viver uma vida sem passar por uma ou por outra posição, mas considero que é importante face a essas experiências poder pensar e fazer escolhas. Sou da opinião que a humilhação do outro, parece ser um dos alimentos predilectos das pessoas, que por uma razão ou por outra, sofrem de falta de amor próprio.
O ataque à auto-estima alheia transforma-se assim numa espécie de compensação narcísica. Esta caricatura que os Gato Fedorento fazem é brilhante. As pessoas e os grupos humanos, gostam de arranjar alguém que possa ser o alvo da projecção das suas falhas, problemas ou dificuldades. Se o outro for o “marreco” ou o “maneta”, nós podemos continuar a ser “os bons”, que não têm essas “maleitas”. A marginalização do que nos incomoda é um fenómeno muito antigo, os “loucos” sempre foram colocados à parte até há bem pouco tempo.
Não é por acaso que qualquer pessoa diz com grande à vontade e em qualquer contexto, social ou profissional, que foi ao médico. Agora falar assim abertamente de que se foi a uma consulta com um psicólogo, é outra história. Como se uma doença do corpo não fosse da nossa responsabilidade, já ter dificuldades psicológicas é motivo para recearmos ser rotulados como malucos, fracos da cabeça ou tan-tan. Por exemplo, as pessoas com problemas de drogas ou que têm uma escolha homossexual podem sofrer o mesmo destino, serem marginalizados. Uns porque têm um problema de saúde, e outros porque têm uma escolha sexual estatisticamente minoritária. Infelizmente, a cor da pele e a classe sócio-económica ou cultural também são como sabemos, motivos para agressões deste género há muitos séculos.
Em geral, o que incomoda ou é diferente, é posto à margem. Como diz o ditado popular: “Coração que não vê, é coração que não sente!”. É uma defesa! A pessoa defende-se da dor que implica pensar sobre o que do seu ponto de vista lhe é desconhecido. Agora a humilhação e rejeição do próximo é muito mais que isso, é agressão! Em geral, isto começa cedo, quando eu era criança já havia as alcunhas maldosas, tal como há hoje na escola da minha filha. O “Gordo”, a “Olívia palito”, o “Caixa de Óculos” e outras bem piores. Esta crueldade é sentida por quem é o alvo destas alcunhas, como ataques muito fortes ao seu amor próprio, com consequências por vezes irreparáveis. Falamos de um mecanismo básico e curto de horizontes, baseado na premissa de que se o outro é o alvo, então não sou eu. Por outro lado, trata-se de um ataque perverso, visto que sob a complacência do companheirismo grupal e de um vinculo odioso tudo é possível. Estas coisas acontecem em todo o mundo e a toda a hora, inclusivamente em muitas relações de casal, ou nas famílias, entre pais e filhos e entre irmãos. A caricatura dos gato fedorento mostra ainda o aspecto defensivo de quem está a ser humilhado. Na sua impotência e incapacidade de se defenderem, algumas pessoas alvo da humilhação colaboram na mesma, acreditando desesperadamente que esta atitude mostre a sua verdadeira força. Pior, quem agride acha-se desculpado com esta atitude permissiva, e o agredido fica ainda mais destruído.
Quem humilha pisa e sente-se forte, envergonha os outros e usa-os para preencher o seu vazio, olhando-se ao espelho com vaidade. O que o vaidoso não vê, é que a maior vergonha fica consigo e com o seu acto vergonhoso! O que o agressor não vê e não percebe, é que se alimenta disto para compensar o seu sentimento de falta de alimento. No fundo, é um subnutrido, não lhe deram amor. Não se sentiu amado, logo não se ama e não pode amar os outros! Como diria uma procuradora do ministério público com quem um dia troquei algumas palavras: “É um triste… mas também é filho de Deus!”.
Alexandre Silva
(Psicólogo Clínico)