Consultório de Psicologia Clínica, Psicoterapia e Psicanálise
Boa noite.
O meu nome é Susana. Tenho 30 anos e sofro de ansiedade e crises de pânico, também sou hipocondríaca. Bem terei de começar pelo inicio para que consiga perceber a minha historia. Até sensivelmente os meus 15 anos fui uma criança que se pode dizer feliz, tudo o que precisava eu tinha e até mesmo o que não precisava admito. Quando tinha cerca de 15 anos tudo mudou. A minha mãe começou a dar-se com pessoas não muito normais. A vida dela deu uma grande volta. O sócio deu um desfalque na firma fugiu com o dinheiro todo. A minha mãe foi-se abaixo e começou a procurar ajuda em bruxas e coisas do tipo… Foi quando tudo começou.
A minha mãe começou a sentir coisas estranhas e comecei a vê-la fazer coisas que nunca tinha feito. Foi horrível.
Com 17 anos conheci o meu ex-marido. Ele era GNR tinha 24 anos e a minha mãe disse-me ” casa-te filha. Salva a vida da mãe, compra as coisas ficticiamente!” Ela estava a perder tudo.
Assim fiz, casei ainda mesmo com 17 anos. Não consegui salvar nada além de uma carrinha. Entretanto fiquei grávida, e tudo começou, com 3 meses de gestação o meu ex-marido deu-me a primeira estalada. A primeira de muitas.
A minha mãe entretanto também ficou grávida.
Quando o meu filho nasceu o meu ex-marido pede transferência para a terra dele e saí de onde morava, entretanto os meus pais também foram morar para São Miguel pois o meu pai é militar e foi destacado para lá.
Aí a minha vida tornou-se um inferno total.
O meu ex-marido começou com violência quase todos os dias, era horrível, não tinha direito sequer a ligar para a minha mãe… Não tinha telemóvel ele partia todos quando descobria que andava a falar com a minha família.
Um dia tentei matar-me com a arma dele à frente dele, mas, o meu filho apareceu, graças a Deus e perdi a coragem. Mas nesse dia fez-se o clik! Chegava… Ao fim de 6 anos decidi fugir, e fugi… Saí de casa e fui viver para a rua, deixei para trás o meu filho… ia vê-lo todos os dias mas não o podia levar, não tinha condições. Decidi fazer queixa no tribunal de violência doméstica mas, quando o processo já ia a meio a CPCJ queria-me tirar o meu filho para adopção pois o pai era um agressor e eu não tinha condições. Não pensei duas vezes e disse que era tudo mentira, retirei a queixa e dei o poder paternal ao pai.
Continuei na rua. Um dia por estar carente não sei, envolvi-me com um rapaz…. usámos preservativo mas rompeu e ele não viu… fiquei grávida… outro problema… ameaças de morte e eu sem condições…. Abortei 😦 tento até hoje esquecer-me do que fiz mas não sou capaz.. não me perdoou nunca….
Passados uns meses conheci o meu actual companheiro, e juntei-me com ele… estou com ele a 6 anos, se sou feliz? Não nada, mas continuando. Passado um tempo engravidei e aí sim tive a criança… o meu anjo … quando pensei vai tudo melhorar outro problema… o pior da minha vida.. o meu filho nasceu com problemas genéticos epilepsia e atraso global no desenvolvimento… desde então a minha vida não tem paz. O pai dele não ajuda e culpa-me pela doença… não está fácil.
Aqui está a minha história de vida…
Agora sobre a ansiedade… desde os meus cerca de 15 anos que tenho crises horríveis… penso que vou morrer… não me podem falar numa doença que mais tarde vou sentir tudo… não sou capaz de fazer viagens sozinha e acompanhada também é difícil.
Não está nada fácil viver com isto…
Ninguém compreende o que sentimos… sinto-me menos que toda a gente… olho para as outras mulheres e sinto que todas são melhores que eu…
Olho para o espelho não gosto do que vejo… acho-me feia e gorda…. estou mal muito mal….
Aqui fica a minha apresentação…
Desde já peço desculpa pelo testamento.
Atentamente
Susana.
Bom dia Susana,
Agradeço-lhe ter partilhado a sua história comigo e com os leitores do Blog. A Susana tem uma história com muito sofrimento, e teve de viver situações muito dolorosas que a levaram a um grande desespero.
Parece-me pelo que conta, que desde muito cedo lhe foi dada uma missão para a qual não estava, nem tinha de estar preparada, salvar a sua mãe! Compreende-se que este peso e responsabilidade em cima de si, tenha provocado as primeiras crises de ansiedade. Aos 15 anos estava na adolescência, numa altura em que está a aprender como se deixa de ser criança, mas ainda não se é adulto. Nesta altura, os jovens ainda precisam muito do apoio dos pais e de aprender com o exemplo deles. Os adolescentes têm muitas inseguranças, precisam de ganhar confiança através da vivência de experiências positivas dentro e fora de casa. No caso da Susana, tudo isto ficou comprometido!
Quando se tenta ser adulto antes do tempo, tornamos-nos numa espécie de pseudo-adultos! Tudo tem o seu tempo de maturação. Uma árvore também não dá frutos antes do tempo! É forçado e por isso falhamos, porque não temos as competências desenvolvidas para o fazer como deve ser. Tudo tem o seu tempo!
Depois parece que foram uma sucessão de más experiências, em que o medo, a sua dependência dos outros e a falta de confiança em si própria, parecem ser elementos comuns a todas elas. A ansiedade descontrolada poderá estar relacionada, com um sentimento difuso de que o que lhe acontece não depende de si, das suas escolhas e que está à mercê dos outros e do mundo inteiro!
Sugiro-lhe que pense nestas 3 questões:
– Como é que posso retomar o controle perdido da minha vida?
– Como posso construir e/ou recuperar a confiança em mim própria?
– O que está ao meu alcance mudar na minha vida?
Cumprimentos e as maiores felicidades para a sua vida!
Alexandre Silva
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bom dia doutor Alexandre Silva…
Ora ai esta questoẽs que nao lhe sei responder…. tento encontrar resposta para todas elas mas nao sei quais nem como…
como posso retomar o controlo?? perdendo a ansiedade.
confiar em mim propria? dificil….
o que esta ao meu alcançe?? nao sei…
aqui tem as respostas…. nao ajudaram em nada calculo.
cumprimentos. e desde já muito obrigado pela resposta.
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Parece-me que a Susana respondeu muito rápido, tome um tempo para reflectir, sem pressas! Já se perguntou sobre o que é que tem controlo e o que não tem? Acredito que sim, mas por vezes as pessoas fazem isso e a seguir ficam confusas! Escreva e seja prática. Por exemplo, no trabalho, nas relações amorosas, na relação com o filho, com os pais, com as amizades, com a sua saúde física e mental? O que depende de si, e o que não depende? Naquilo que depende de si, o que poderá fazer? Leve isto como uma espécie de T.P.C.!
Confiança? O que sabe fazer bem? O que sabe fazer menos bem, mas gostava de melhorar em si? O que não sabe de todo fazer mas gostava muito de aprender?
A terceira questão pode ser muito curiosa, muitas vezes as pessoas Quando começam a pensar em soluções encontram muitas respostas, simplesmente desistem porque acham que não vão ser capazes, sentem-se sem forças! Mas às vezes, se der aquele pequeno passo para começar poderá ficar muito surpreendida com os resultados e com aquilo que será realmente capaz de fazer!
Para mudar é preciso trabalhar! Grande Força!
Alexandre Silva
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