Escolhas de Amor

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O casamento é bom de fazer; mas quem o há-de manter, muito há-de de saber

                                                                                                              Provérbio popular

 

Será possível saber como se deve escolher quem se ama? O que nos leva a amar uma pessoa e não outra? Algumas pessoas parecem nunca saber escolher a pessoa certa. Quais serão os motivos que inconscientemente nos podem empurrar para certas escolhas?

Não são perguntas de resposta única, afinal têm ocupado o Homem ao longo dos séculos, desde poetas, cientistas, pintores, atores, escritores, filósofos e psicólogos, todos têm tentado explicar os mistérios do coração.

Neste mês de dezembro, mês do Natal e dos encontros familiares, iremos ocupar-nos com a relação amorosa mais duradoura, e não com as paixões fugazes ou os encontros sexuais fortuitos. São infindáveis os motivos que atraem as pessoas, desde os imprevistos à química, da beleza ao humor. Serão assim tão aleatórias as razões que nos levam a ficar juntos? Não me parece!

Há pessoas que não percebem como é que se podem enganar repetidamente na sua vida. Algumas atribuem ao azar, outras a um destino fatídico qualquer, ou então acham que têm qualquer coisa de errado para só atraírem pessoas que as fazem infelizes. Todos já ouvimos histórias destas ou já o sentimos na pele em dado momento da nossa vida.

E se o problema estiver em nós e na forma como escolhemos? Como é feita essa escolha?

Quando idealizamos a pessoa amada o que desejamos? Acredito que todas as pessoas estejam convencidas que querem amar e ser amadas, já a sua capacidade para o conseguir é que pode ser bem diferente.

Qual a janela que poderemos abrir para compreender esta questão. Sim uma janela, foi precisamente a representação que me veio ao espírito ao refletir sobre esta questão. Há pessoas que ao passar por uma janela se tentam ver ao espelho, como Narciso nas águas do rio, outras tentam olhar lá para fora através da janela, curiosas à procura de ver no outro um amor como aquele que tiveram no passado infantil, e quem não o teve gostava de ter tido. Sim na infância, porque foi lá que se constituiu, ou não, a capacidade para estabelecermos vinculações e constituirmos uma representação interna do outro.

O que procuramos no outro? O que nós somos, o que já fomos ou o que gostaríamos de ser? Quantas pessoas entendem o amor predominantemente desta forma, elogiam o terem muitas coisas em comum, gostam de fazer as mesmas coisas, pensam da mesma forma e não gostam das mesmas pessoas. No meu consultório tenho encontrado muitas pessoas que namoram ou casam porque admiram muito uma pessoa, é a pessoa que elas gostariam de ser, um Ideal do Eu. E se o ideal me ama fantástico! Não digo que a admiração não possa fazer parte da equação, no entanto não deve ser o seu único elemento.

Recentemente, um paciente que sigo em psicoterapia em consultório, descreveu-me que sempre teve relações com pessoas mais velhas, tendo neste momento uma relação com uma pessoa mais nova, e diz que ela está agora na posição em que ele sempre esteve. Parece estar apaixonado pela pessoa que já foi, está a tentar amar, como queria ter sido amado nas relações anteriores. Quando não conseguimos olhar através da janela, não vemos senão a imagem de nós mesmos, passada, presente ou futura! Outras pessoas procuram o que é diferente, mas também familiar, são curiosas, abrem-se aos outros e procuram encontrar no presente algo que lhes traga as satisfações e segurança de um outro tempo.

No homem a mãe que alimenta e, na mulher o pai que protege, tal como Freud refere no seu texto Para uma Introdução ao Narcisismo (1915). A sua distinção entre escolha de objeto de amor narcísica ou de apoio, diz respeito ou, à já referida procura de si próprio ou então, à procura de alguém que faça a função dos objetos de amor primários. Mas se nessas primeiras relações houver sérias perturbações na capacidade de vinculação, as futuras escolhas de amor podem ficar seriamente comprometidas.

Algumas pessoas repetem nas relações amorosas o tipo de relação patológica que tinham com as pessoas que delas cuidaram com resultados desastrosos, tornam-se dependentes anulando a sua vontade própria, têm relações de controle em que o poder sobre o outro é um objetivo e não uma consequência do amor. É debaixo deste tipo de sentimentos julgam ser legítima a violência nas relações.

Nas relações mais estáveis as características de apoio predominam, com proteção mútua e satisfação sexual, no entanto os elementos narcísicos estão sempre em alguma medida presentes. Os casais que funcionam são sobretudo assimétricos, mas complementares. Quando as trocas são satisfatórias as relações resultam, mas quando isto não acontece, surgem as frustrações, os ciúmes, o adultério, as guerras e os divórcios.

O que é então esta janela de que vos falo? É um modelo para descrever a capacidade de pensar o que está dentro e fora de nós. Um pensar aberto a ver e mostrar-se ao outro. A possibilidade de podermos pensar, perceber e representar a nossa realidade interna, aquilo que sentimos por alguém, o que esperamos do outro, o que nos assusta, o que nos satisfaz, os nossos desejos e o que nos faz sonhar. Da mesma forma, é importante poder olhar para fora e ver quem é o outro e, se nos pode ou quer dar o que precisamos, mas sobretudo o que queremos dar, cuidar, apoiar e alimentar. O resultado é uma alegre e íntima partilha, se o outro estiver em sintonia connosco. Só assim podemos encarar o compromisso, a cumplicidade e o respeito que uma relação adulta implica. Quando a janela só faz de espelho, queremos receber aquilo por que ansiamos, e não conseguimos ver o outro, depois surgem surpresas desagradáveis. O retorno do lado de lá também é essencial, senão corremos o risco de ficar vazios, tristes, deixarmos de nos apreciar, não pedindo ou exigindo aquilo de que precisamos.

Na comédia romântica What Women Want, o ator Mel Gibson faz o papel de um engatatão que vive sob a forma desta escolha de amor narcísico, na busca do prazer sem se importar com os outros, alimentando-se do reflexo no espelho. Após um acidente bizarro, o personagem acaba adquirir o poder de ouvir telepaticamente o que pensam as mulheres de quem está perto fisicamente, sem estas saberem. Usa este poder para manipular e roubar as ideias da sua nova chefe, protagonizada por Helen Hunt, que tinha ficado com o lugar que ambicionava. O que o personagem não esperava é começar a perceber o lugar do outro, e sobretudo a ver esta e outras mulheres como ela são, para além do que ele podia anteriormente saber ou imaginar. É evidente que a história à boa maneira americana se desenrola até um happy end, mas o que este filme ilustra de forma muito divertida, é justamente a passagem de um amor egoísta para um amor altruísta.

O amor por outra pessoa não serve apenas para que ela desempenhe um papel junto de nós, mas é um fim em si mesmo. É dar sem pensar no que se recebe. Contudo, não queremos menosprezar a importância de ser amado de volta, senão seriamos nós os explorados. Se quer escolher bem o seu amor, não se procure nele, arrisque descobrir o que é diferente de si, mas que a queira a si, partilhando o mesmo caminho. Na vida como no amor saudável, é na ligação com o diferente que se fecunda, dando nascimento aos bebés, aos pensamentos criadores, à novidade e à esperança, à cultura e à civilização!

Alexandre Castro e Silva

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